Carta de desamor
Acordo para mais um dia e dirijo me de olhos fechados para o banho. Só
mais ou menos 10m depois é que as pálpebras começam a descolar. O ritual é
sempre o mesmo com o relógio a fazer aquele tic tac ensurdecedor dentro da
minha cabeça e a condicionar-me os movimentos todos.
Tens uma vozinha irritante que me entope os ouvidos com frases como,
"inacreditável o tempo que demoras a secar o cabelo", "há tanto
tempo que usas maquilhagem e ainda não sabes fazer melhor do que isso",
"por mais que aches que te esforces não hás de chegar nunca a horas ao
escritório" e por vezes a ainda pior "estás mais cheiinha"!
Vou ignorando estes comentários e juro que se não tivesse que me
despachar para o ameno dia-a-dia cronometrado te dizia poucas e boas, aqui e
agora. Talvez amanhã, talvez este fim de semana. Hoje não... Continuo.
Os rituais repetem se dia após dia, a torradeira cinzenta das antigas,
que faz lembrar um daqueles aquecedores com resistência, que quando ficam
quentes parecem lava e com os quais era muito fácil uma criança com uma
almofada encostada provocar um incêndio em casa, insiste em queimar-me uma
torrada!
Vejo as gordas do dia e quem já anda pelo facebook cheio de energia quando eu ainda só desejo voltar para a
cama, e de repente vejo uma ou duas coisas que só me dão vontade de terminar
com isto...
De mudar, de acabar com esta rotina mórbida, sincronizada, que me leva
todos os dias ao mesmo sítio, um vazio profundo e nada emocionante onde as
histórias que vivemos não são nossas, e provavelmente os seus narradores também
não as viveram nem as sentiram.
A este sítio onde não há lugar para a criatividade, para a diferença
dos ímpares, para os pés descalços sem peúgas, para as panelas sem tampa. Só há
lugar ao comum, ao pequenino, ao que segue a linha recta e a carneirada.
Já depois de engolir meia torrada carbonizada, olho para as roupas a
preceito, compradas criteriosamente e com orçamento curto na Zara, e de repente
só me apetece oferece-las à tipa lá do trabalho, que por onde passa deixa um
rasto daquele plástico da loja do chinês...caramba, ela precisa mais disto do
que eu…
Saio para mais um dia, e bonito que está... O sol aquece-me pelos
vidros do carro e a túnica já vai amarrotada. Tenho sempre a sensação inútil do
passar a ferro como a do fazer a cama... Será que aqueles 5m de prazer de
lençóis esticados compensam o tempo despendido na tarefa? E se multiplicarmos
todos os minutos que utilizamos para fazer uma cama pelos dias de vida que já
passamos, obviamente desde o dia em que a nossa mãe ou avó nos ensinou a tarefa
com primazia tal, que numa primeira instância nos parecia tão interessante e
nos fazia sentir com tanta responsabilidade, será que valeu a pena?
O sol queima e a fila de carros é intensa ali, no cruzamento de
Belém... Estou parada no semáforo, a dar os últimos retoques pelo espelho do
carro... O sinal abre, e de repente, num acto irreflectido, viro à direita!
Sigo pela marginal, vidros abertos, música aos gritos! E canto, como se
a minha voz fosse desaparecer amanhã e tivesse que a gastar toda hoje!
Sigo em frente, sigo em direção ao Guincho, será?
Não sei, naquele momento ninguém sabe! Posso parar, posso seguir, mas
sei bem onde não quero voltar!
Desculpa Vida, o problema não és tu… Sou eu.
Como aliás acontece com todas as minhas outras relações à beira do
abismo.
Eu e tu chegamos ao fim, este lume não tem mais por onde arder...
Hás de encontrar alguém, que te ame e trate bem, que gosto deste teu
modelo, que não se canse se ti, que te dê ouvidos e que seja submisso à tua
vontade, mas hoje, esse alguém, não sou eu...
Até sempre!
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