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Na vida só há uma coisa certa. A incerteza de todas as coisas.
Mesmo as mais simples de prever, se chove ou faz sol.
O dia de amanhã nunca será igual ao de hoje tal como o de hoje não foi igual ao de ontem.
Por essa razão nada se deve e pode tomar como garantido.

É no entanto muito difícil ao ser humano não se deixar embriagar pela fluidez dos momentos que parecem constantes e assumi-los de certa forma como seguros, acreditar que possam durar para a eternidade. Porque naquele momento em que os vive, em que o coração palpita, a face ruboriza está a eterniza-lo.
Não nunca porque este se vá repetir indefinidamente mas porque aquilo que está feito, vivido, sentido ou dito não volta atrás.

Depois de concretizado é eterno, nada mudará o pretérito perfeito.
Isto acontece nos bons e nos maus momentos.
A vida é um constante inconstante balançar entre o bom e o mau, o certo e o errado, a esquerda ou a direita. ​Mas não há nada mais forte do que as ações. Tudo aquilo que podemos não dizer mas que está latente em todos os nossos movimentos, escolhas, decisões, pequenas ou grandes, inofensivas ou de peso inolvidável.​ Sei que foram ações e reações, e falta delas, que me trazem hoje aqui.

Não é uma escolha fácil escrever. Não o é quando sabemos que a outra parte está tão perto, à distancia de poucos kms ou de um telefonema. Mas é inequívoco que mesmo na selva social onde não há privacidade alguma, o ser humano ainda tem a capacidade de se alhear por completo do que não lhe agrada, não lhe interessa ou simplesmente não deseja encontrar.
E assim, por existir neste momento uma muralha da China e um muro de Berlim entre nós, percebi que as minhas hipóteses se esgotaram.

Porque os problemas são coisas que nos incomodam, porque lidar com sentimentos, nossos e alheios nos fragiliza, tentamos deixar sempre para depois, como lavar o carro, por gasolina pu pagar impostos. Durante estes últimos tempos e depois de ouvir atentamente as palavras que me disseste num momento de exaltação mas que precisavam de ser ditas, pensei e repensei.

E tudo o que gostaria e te pedi, supliquei, quase de forma infantil, foram um par de horas em que te pudesse dar o meu balanço dessa informação face à minha. Em que pudesse abrir o meu coração e falar-te do alto dele. Não pretendia fazer-te suplicas de promessas velhas que não podem mais ser cumpridas. Não pretendia colocar-te num lugar desconfortável.

Queria apenas que soubesses o que me vai na cabeça no rescaldo do que passamos. Negaste-me ou adiaste-me esse direito e soube no meu coração que estavas certo, que o assunto estava quente e o meu coração a ferver. Li algures que não devemos prometer nada quando estivermos felizes, não responder quando estivermos irritados e não decidir nada quando estivermos tristes. Esperei, minutos, horas, dias, que para mim parecem milhões de anos. Tentei aproximar-me de forma pura e sincera, destapando-me das capas do orgulho, do medo, da arrogância.

Despi-me das defesas que tanto me protegem como me prejudicam, por ver em ti um bem maior. Por saber que só esse caminho te poderia fazer ver e entender o que sinto, e de alguma forma perceber as minhas atitudes. A maior luta interior que uma pessoa como eu pode travar é a espera, o controlo da ansiedade, o medo do tempo passar demasiado rápido e de o mundo não parar de girar quando nos sentimos nós imóveis, sem conseguir dar um passo seja para onde for.

Mas tentei, tento... Todos os dias tento encontrar em cada palavra tua uma razão para esperar, para aguentar, para não insistir, ou virar as costas. Todos os dias esperei que fosse o dia, que a altura certa chegasse. Esperei dentro destas paredes vazias. Tentei chegar a ti e deixaste cair toda e qualquer manifestação de afeto num silêncio sem fim.

Nunca mo disseste, com estas palavras, mas achei que o sentimento era amor. Nunca to disse por estas palavras, mas é amor o que sinto. Um amor que ora tive que guardar ora tive que tirar de um lugar escuro, escondido e guardado. Uma paixão que não podia viver e que tive que abafar, e que abafei tão bem que não a conseguia recuperar.

Mas como pessoa negativa que sou, assim que me escorreste pelos dedos, pelas pernas, por todo o meu corpo e contigo levaste o meu chão, a caixa guardada apareceu e a paixão saltou para fora, empoeirada, magoada e só. Tal como quando a guardei.

O que quero com isto dizer, e retomando o fio à meada, é que as atitudes são o que mais dizem sobre nós, aquilo que nos faz saber a verdade, mesmo quando a tentamos disfarçar com subterfúgios e palavras vagas. Foram as minhas ações que te fizeram apagar do teu mapa as coordenadas que um dia me enviaste numa declaração de amor. E são as tuas ações que me fazem entender o significado de uma palavra que tanto prezas e usas: escolha. A tua escolha é clara, e está nas entrelinhas das frases a que não correspondes, da procura que não reciprocas, dos smiles que mandas para não deixar as minhas já pouco relevantes declarações de saudade e de desejo de um amanhã sem resposta alguma.

O meu desejo de um amanhã que pudesse ser muito diferente do hoje.
Dilacera-me o coração não ter aproveitado a oportunidade de fazer mais e melhor.
De demonstrar a enorme felicidade que me deram todos os momentos mais simples contigo. Mas fui só eu que o fiz.
Refletida ou não foi a minha escolha e refletida ou não, esta é a tua escolha.

Escolheste alhear-te da minha vida deixando de novo vazio o espaço que outrora já o era.
A diferença entre este vazio e o anterior é como a de um sofá novo para um sofá velho.
O velho sofá tem marcas de um corpo que já lá esteve, deixa saudades de um sofá que estava preenchido. Um sofá novo é apenas um novo sofá, como o teu, onde poderá ser feita história, que um dia pode ou não deixar um lugar vazio.

Usando uma expressão tua, compreendo e aceito.
Não concordo, não quero, não desejo e não podia estar mais revoltada com tudo, e acima desse tudo, comigo. Mas a vida e a felicidade são feitos de momentos, que são eternos dentro de nós, e na maioria das vezes apenas ai reside a sua eternidade. Se não lhes soubemos dar o devido valor enquanto aconteciam... Quem mais podemos culpar? A vida dá-nos limões, azar o nosso se ainda não aprendemos a fazer limonada.

16 Agosto 2013

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