A Paixão
A razão de tantos livros, de tantas músicas, de tantos filmes, de tantas vidas.
A razão que nos move. Que nos acorda. Que nos sacode para a vida. Já foi descrita por milhares de artistas e pessoas comuns em milénios de civilizações. É um sentimento ou sensação comum e transversal a toda a existência humana e exposta em texto, pintura, em acções loucas e surpreendentes.
Mas ainda assim, sempre que um de nós a encontra em qualquer uma dessas formas se sente, se ressente, se embriaga nela e tem mais uma história para contar. Para mim é claro que esta pequena palavra de dimensão incontornável é uma dose de vício. Um risco da coca mais barata do mundo e das que mais vicia. É sempre uma loucura. E tem sempre fim. O fim é o busílis da questão.
O que fazer quando ela acaba?
Se entramos numa ressaca profunda e dolorosa porque precisamos naquele momento dela como de água para a boca, ou se aceitamos esse fim como o fim do concerto das nossas vidas. Se inspiramos e expiramos retirando da experiência o melhor que teve, aceitando que chegou ao fim partindo serenamente para uma etapa seguinte. Ou se nos desesperamos por ela e nos deixamos cegar de tal forma que o nosso único objectivo se torna encontrá-la a qualquer custo e em qualquer lugar.
A questão da proveniência é, na minha experiência pessoal, muito relevante nessa fase. Saber onde a procurar. Muitos de nós ficamos presos na última fonte da paixão e continuamos a procurá-la onde, conscientemente, sabemos que já não pode ser encontrada. Quando mergulhada nesta espiral irreversível a nossa alma desgasta-se, corrói-se, mutila-se sem que nada de bom possa dai advir.
O passo seguinte pode dividir-se. Ou dessa paixão nasceu uma calma e serenidade com a qual muitos se habituam a viver e a retirar dai o suco de uma tranquilidade que pode e deve ser saboreada, ou simplesmente ela acabou e deixou apenas uma memória para se guardar, para se escrever, para se pintar, para se cantar.
A paixão nem sempre leva ao amor. A paixão é muitas vezes a ignição do desejo, camuflada por um depósito cheio que no momento de arranque parece ser inesgotável. Mas não é. Nada é. É apenas o combustível certo para se chegar onde se quer, e quando se quer muito e se põe o pé a fundo no acelerador, podemos chegar mais depressa mas chegamos de depósito vazio.
Na minha perspectiva a paixão só pode ter um refill quando é absolutamente recíproca. E raramente o é, pelo menos comigo. Porque os meus timmings são muito meus, a minha velocidade raramente é acompanhada pelo outro. Se antes eu era a primeira a partir, agora arranco sempre em último. Só quando estou preparada. E o que aprendo a cada volta é que quando cruzo a linha da chegada, a outra parte já terminou a corrida. Sinto-me sempre um objecto de desejo rápido. Sinto sempre que o meu interesse só atrai o outro quando me mantenho rígida, distante, impenetrável, quando não dou de mim.
Se a paixão é isto, se a minha visão estiver certa, é mais uma droga de que abdico hoje. O que eu desejo para mim é permanência, constância, serenidade. Um sol que nasce e se põe todos os dias e do qual eu possa desfrutar sem pressas, sem medo que acabe. Um calor que está para mim sempre que tenho frio. Uma luz que se acende sempre que a escuridão me assusta. Uma mão que se entrelaça na minha e caminha lado a lado comigo quando o caminho é incerto.
Se não é isto, então prefiro apaixonar-me pelas coisas boas da vida, pelo tempo, pelos amigos, pela alegria das coisas simples. Prefiro apaixonar-me por um livro, por uma música, por uma capa de édredon colorida, por uma jantarada, por um pequeno-almoço à beira rio, por um mergulho no mar.
Abdico dessa droga leviana.
O que eu quero é Amor.
Pelo próximo, e sobretudo, por mim.
A razão que nos move. Que nos acorda. Que nos sacode para a vida. Já foi descrita por milhares de artistas e pessoas comuns em milénios de civilizações. É um sentimento ou sensação comum e transversal a toda a existência humana e exposta em texto, pintura, em acções loucas e surpreendentes.
Mas ainda assim, sempre que um de nós a encontra em qualquer uma dessas formas se sente, se ressente, se embriaga nela e tem mais uma história para contar. Para mim é claro que esta pequena palavra de dimensão incontornável é uma dose de vício. Um risco da coca mais barata do mundo e das que mais vicia. É sempre uma loucura. E tem sempre fim. O fim é o busílis da questão.
O que fazer quando ela acaba?
Se entramos numa ressaca profunda e dolorosa porque precisamos naquele momento dela como de água para a boca, ou se aceitamos esse fim como o fim do concerto das nossas vidas. Se inspiramos e expiramos retirando da experiência o melhor que teve, aceitando que chegou ao fim partindo serenamente para uma etapa seguinte. Ou se nos desesperamos por ela e nos deixamos cegar de tal forma que o nosso único objectivo se torna encontrá-la a qualquer custo e em qualquer lugar.
A questão da proveniência é, na minha experiência pessoal, muito relevante nessa fase. Saber onde a procurar. Muitos de nós ficamos presos na última fonte da paixão e continuamos a procurá-la onde, conscientemente, sabemos que já não pode ser encontrada. Quando mergulhada nesta espiral irreversível a nossa alma desgasta-se, corrói-se, mutila-se sem que nada de bom possa dai advir.
O passo seguinte pode dividir-se. Ou dessa paixão nasceu uma calma e serenidade com a qual muitos se habituam a viver e a retirar dai o suco de uma tranquilidade que pode e deve ser saboreada, ou simplesmente ela acabou e deixou apenas uma memória para se guardar, para se escrever, para se pintar, para se cantar.
A paixão nem sempre leva ao amor. A paixão é muitas vezes a ignição do desejo, camuflada por um depósito cheio que no momento de arranque parece ser inesgotável. Mas não é. Nada é. É apenas o combustível certo para se chegar onde se quer, e quando se quer muito e se põe o pé a fundo no acelerador, podemos chegar mais depressa mas chegamos de depósito vazio.
Na minha perspectiva a paixão só pode ter um refill quando é absolutamente recíproca. E raramente o é, pelo menos comigo. Porque os meus timmings são muito meus, a minha velocidade raramente é acompanhada pelo outro. Se antes eu era a primeira a partir, agora arranco sempre em último. Só quando estou preparada. E o que aprendo a cada volta é que quando cruzo a linha da chegada, a outra parte já terminou a corrida. Sinto-me sempre um objecto de desejo rápido. Sinto sempre que o meu interesse só atrai o outro quando me mantenho rígida, distante, impenetrável, quando não dou de mim.
Se a paixão é isto, se a minha visão estiver certa, é mais uma droga de que abdico hoje. O que eu desejo para mim é permanência, constância, serenidade. Um sol que nasce e se põe todos os dias e do qual eu possa desfrutar sem pressas, sem medo que acabe. Um calor que está para mim sempre que tenho frio. Uma luz que se acende sempre que a escuridão me assusta. Uma mão que se entrelaça na minha e caminha lado a lado comigo quando o caminho é incerto.
Se não é isto, então prefiro apaixonar-me pelas coisas boas da vida, pelo tempo, pelos amigos, pela alegria das coisas simples. Prefiro apaixonar-me por um livro, por uma música, por uma capa de édredon colorida, por uma jantarada, por um pequeno-almoço à beira rio, por um mergulho no mar.
Abdico dessa droga leviana.
O que eu quero é Amor.
Pelo próximo, e sobretudo, por mim.
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