Caminhos

Olá...

É raro em qualquer texto que escrevo dirigir-me a um "tu" tão objectivo. Normalmente os meus desabafos são generalizados, estilo peúgas, que dão para para qualquer pé. Mas hoje não. Este meu desabafo é única e exclusivamente para ti, porque és o objecto actual do meu desejo e paixão. 

Quando te conheci houve de imediato algo que me despertou profundo interesse. O teu jeito tímido e semi desinteressado mas que carregava um interesse subversivo escondido fez-me ter vontade de perceber o que estava por detrás daquilo que aparentavas ser. 

Não tinha nenhuma intenção vil, nem emocional, nem física ou sexual. Era um interesse puro de um ser humano que se considera fora dos demais a querer descobrir algo sobre um outro que lhe pareceu estar na mesma escala da sua espécie animal. Vivia na altura uma relação daquelas que parece que vão ser perfeitas e que por isso tem tudo para vir a ser um fracasso e só por aí se percebia a inocência das minhas intenções (e foi efectivamente um fracasso).

Achei-te um sujeito tímido mas com ar de trazer uma bagagem grande pelas costas. Achei curioso termos a mesma idade e estarmos ambos sozinhos (emocionalmente, pelo menos assim me parecia) e não termos filhos nem planos de casamento. É raro nos dias que correm. Ambos vivíamos sozinhos e curiosamente a uma proximidade muita curta. Pareciam-me muitos pontos de atração que não tive vontade de ignorar. 

Com o tempo descobri em ti um sentido de humor imperdível e delicioso e um entusiasmo que me remeteu à minha adolescência e tempos de mais liberdade, provavelmente impulsionados pela vida mais desafogada que levas em relação a minha, e tive vontade de ganhar laços contigo. 
Passaste a ser uma daquelas pessoas que pensamos: eh pá que porreiro, gostava de não perder uma pessoa destas da minha vida. Um bom amigo, uma pessoa presente e interessada no nosso bem estar, uma companhia para as coisas agradáveis da vida como uma ida ao cinema ou um por do sol para terminar um dia de treta.

Aos poucos senti que havia algo mais a crescer em ti, não sabia se era desejo ou apenas curiosidade. Sei que tive medo, por já nessa altura perceber a diferença dos nossos mundos e ter muito medo de perder o pé. Como sabes tenho medo de mares turbulentos. 

Um dia, após vários gestos de ternura que nunca me deixaram indiferente mas sim super assustada, vieste com o teu jeito doce e manso e beijaste-me de uma forma suave e terna, quente e calma como há muito não me acontecia. E depois disso, todos os momentos seguintes foram de calma, de ternura, de doce, de quente, de sol, de abraço. Durante uns tempos senti-me a levitar e muito feliz. Incluíste-me em todos os teus planos e eu, relutante, não cedi a quase nenhuns com medo do que aí vinha. 
Até que de repente o avassalador comboio da paixão e da entrega (sobretudo a física) tomou conta de mim e me levou com ele agarrada a um TGV em alta velocidade e comecei a querer mais, a sentir-me ansiosa, a desejar mais a tua presença, o teu abraço, o teu calor. A ternura e a companhia a que me habituaste. 

E agora, não sei se é da minha vista cansada, da minha expectativa exacerbada (a expectativa é a mãe de todos as insatisfações), sinto que tenho um mundo de ternura para te retribuir mas não te encontro em lado nenhum para to entregar. Pareces-me mais distante, já sem o entusiasmos da conquista. Sinto que estou aqui como tu me desejaste estar, mas que de repente não estas cá. Ou não estas da mesma maneira. 

As gargalhadas já não são tantas, os abraços a noite já não são tão calorosos, os desejos de planos seja para o que for passaram a segundo plano. E eu estou cheia de cortisona e ela pode estar a escrever isto por mim. Mas isso seria só conversa para me desresponsabilizar pelo que acabei de escrever. E não quero fazê-lo. Sei o que estou a dizer, escrevo porque quero que o saibas. Não preciso de promessas nem de caminhos traçados, não preciso de opiniões exteriores nem de fulanos e sicranos. 
Mas tenho 32 anos e gostava de saber que, seja para onde for que estou a ir, se caminhamos juntos.

Um beijo.
Adoro-te.

22 Junho 2014

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