A juventude, essa sacana fugidia
Pode parecer estranho para quem
me conhece, mas embora não seja uma pessoa iletrada, não tive um percurso
escolar brilhante, nem conclusivo.
Numa altura em que a vida devia
ser a tradicional rotina familiar e escolar, quis o destino que as coisas se
descontrolassem de maneira inesperada.
No decorrer do secundário
deparei-me com algumas dificuldades clássicas de adolescente, distrai-me com
propósitos de divertimento, de irreverencia, de indecisão sobre o futuro, no
fundo como qualquer adolescente. O que não foi tradicional foi o acompanhamento,
a orientação, o foco.
Após chumbar no 11º ano por uma
unha negra, as coisas complicaram-se para mim, uma adolescente no secundário a
repetir meia dúzia de disciplinas, sem certezas das suas escolhas, sem saber
que rumo tomar, sempre a questionar as circunstâncias de todos os
acontecimentos.
Havia muita coisa que não era
certa, mas havia sempre uma constância na minha vida, um caderno e uma caneta.
Os instrumentos necessários para apontar todas as minhas aflições e indecisões.
Enquanto vivia esta adolescência,
a minha casa desmoronava-se. Os meus pais entraram em ponto de rutura e eu
deixei de ser uma prioridade. De perdida passei a perdida e meia e daí para
frente, penso que pelo pesar que me deixaram os acontecimentos, a minha memória
como que adormeceu. Tenho apenas pequenos rasgos de momentos que não consigo
encadear cronológica nem emocionalmente.
Sei que foram momentos duros, de
dor alheia e de dor pessoal. Sei que existia vergonha, sei que existia
desilusão. Sei que não compreendia como tudo tinha ido parar aquele momento,
como não o tinha previsto, como não o esperava.
Não sei bem qual foi a ordem das
decisões que tomei, mas sei que por algum motivo, desde muito nova nunca me passou
pela cabeça a dificuldade do amanhã. Vivia numa inconsciente ilusão de que
acontecesse o que acontecesse, no final tudo daria certo, porque crescer era
isso. Ter um emprego, uma casa, um carro, uma família. Pensava que isso era uma
garantia divina por estarmos vivos, que fazia parte do contrato que assinamos
com a vida quando vimos ao mundo.
Talvez por isso, ou por razões
que ainda não consegui identificar, nunca fui uma pessoa que vivesse para a
vida, vivi para as vivências. Queria coletar o máximo de vivências possíveis.
Mas não eram vivências aleatórias. Procurava inconscientemente vivências
afetivas. Sempre fui uma pessoa de afetos, de amor, de paixões. Desde muito
pequena, criança, que me deixava encantar por histórias de amor, que me deixava
tocar por músicas que falavam de amor, por melodias românticas.
Amar para mim podia ser um papel
no universo, um trajeto de vida. Deixei muitas coisas por fazer e pus-me muitas
vezes em último lugar porque o amor era o protagonista da minha vida. E o
protagonista não pode morrer. Adiei o meu futuro, o meu investimento pessoal, a
minha valorização, a minha educação, em prol desse bem maior, o amor. Julgo
mesmo que inadvertidamente acreditava que depois de encontrar o amor, de me
sentir completa, tudo o resto estaria a minha espera, porque fazia parte do
contrato.
Procurei o amor em muitos sítios,
encontrei-o vezes sem conta e perdi-o outras tantas. Mas não desistia, sempre
fui uma lutadora por esse bem precioso. As emoções que me proporcionava eram
incomparáveis a quaisquer outras.
Mas quis a vida, essa com quem julgava
ter contrato selado, que o meu encontro com o amor fosse um desencontro sem
fim. Aos dias de hoje vejo esse malfadado como uma guerra de onde voltei e da
qual não trouxe vitória, apenas recordações na cabeça, marcas no coração e
danos irreparáveis que me consomem pelas noites adentro, no silencio da
solidão.
Hoje, aos 33 anos, dou por mim a
tentar de alguma forma recuperar os anos que despendi nessa luta, e todos os
anos de luto em que me deixei ficar a sofrer, culpando a família, a sociedade,
a vida, o mundo, o universo por nada ter dado certo.
Não sei se vou conseguir, mas sei
que quero muito, e de uma forma extremamente ingénua, ainda continuo a
acreditar que no fim… Tudo vai dar certo!
Comentários
Sugeria-te largar esse "vicio" mas... É mais forte que tu!
Always looking for the Prince charming!